Canção de Ninar
Título Original: The Perfect Nanny
Autor(a): Leïla Slimani
Editora: Planeta (selo Tusquets) Páginas: 192
Lançamento: 2018 ISBN: 9788542212037
Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando? Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde. Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de Ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade. Publicado em mais de 30 países e com mais de 600 mil exemplares vendidos na França, Canção de Ninar fez de Leïla Slimani a primeira autora de origem marroquina a vencer o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês.
Quando visitei o estande da Planeta na Bienal, eu peguei um livreto com trecho
de Canção de Ninar para sentir um
pouquinho da história e, logo na primeira linha que li, me vi capturada pela
trama.
“O bebê está morto."
Uma história que começa assim sabe como
chamar a atenção e fiquei bem curiosa para ler o restante. Finalmente consegui
ler a obra de Leïla Slimani e posso
dizer que é diferente e de nos fazer pensar.
A primeira frase já revela que houve uma
morte. Sim, o bebê de fato está morto e foi assassinado pela babá. Sua irmã
também se encontra em estado crítico e com certeza vai morrer também. E então
nos perguntamos o que aconteceu, como tal tragédia ocorreu.
A história retorna no tempo para nos
conduzir aos assassinatos. Conhecemos então Myriam, uma mulher que após duas gestações deseja
retomar sua vida profissional e trabalhar fora. Na primeira gravidez, ela achou
melhor abrir mão da carreira e ser apenas mãe, esposa e dona de casa. A jovem,
formada com honras na faculdade de direito, se conformou com a vida caseira, com
o casulo criado por ela e pelo marido para criar a filha. No entanto, após a
segunda gestação, ela deixou de se sentir protegida em casa e passou a se ver
como uma prisioneira. Quando encontrou um antigo colega de faculdade e este fez
um convite para trabalhar em seu escritório de advocacia, Myriam viu a chance de
liberdade, de ser mais do que vinha sendo.
A principio o marido desdenhou de seu
sonhos, a forma como respondeu ao anseio da esposa mostrou -se machista, sem
consideração e egoísta. O cara revela claramente que para ele a mulher não
deveria sonhar com carreira e que criar os filhos estava de bom tamanho. Que bom que
Myriam não se deixou intimidar e manteve-se firme. Logo o casal saiu em busca de
uma babá e então as coisas mudaram.
Louise é uma babá tão eficiente, que se torna
indispensável. O casal passa a depender dela e muitas vezes não percebe que ela
está indo além de suas obrigações e invadindo suas vidas, influenciando
diretamente na educação dos filhos. Para Myriam e o marido é muito comodo deixar
a babá cuidar das crianças, cozinhar, passar, arrumar a casa e ditar as regras
para os filhos. Para o casal é tão bom chegar em casa e não ter que se preocupar
com vida doméstica e isso vai mostrando ao leitor como é fácil perder as rédeas da nossas vidas quando nos deixamos levar pelo fácil, pelo confortável e pelos
outros.
Em partes saber o que de fato levou a babá
a partir para cima da crianças é o que move o leitor a virar mais e mais
páginas, mas em determinado momento espiar a vida dessas pessoas e ver as
mudanças sutis que vão acontecendo, identificar dramas reais em cada
acontecimento e notar que estão indo rumo a um caminho sem volta, acaba sendo
mais interessante do que entender o crime. Além disso, a autora abre espaço para
o leitor explorar um lado psicológico complexo de alguns personagens, em
especial de Louise, que é uma mulher enigmática.
A narrativa é quase toda em terceira
pessoa, com poucos diálogos que passam imperceptíveis, e nos faz ter aquela
sensação de estar espionando, por isso usei espiar anteriormente. Não é apenas
assistir, é como olhar pelo buraco da fechadura para a vida do casal e da
babá.
O desfecho não é muito esclarecedor sobre o
crime e muito fica nas entrelinhas para o leitor pensar. No entanto, o que
gostei e me deixou impressionada, foi toda a crítica inserida na obra sobre a
vida moderna e o papel da mulher na família e na sociedade. Achei de extrema
importância a autora ter uma personagem que não desistiu de si para atender o
desejo do marido e ficar em casa. Gostei de ver Myriam se impondo, indo atrás de
seus sonhos. Eu sou uma pessoa que acredita que a mulher tem que se realizar em
todos os aspectos da vida, não é só homem que tem que ter carreira e,
sinceramente, acho que maternidade não deve ser sinônimo de se anular. O homem
deveria também ter que abrir mão de algo no processo de ter filhos, mas
injustamente é sempre a mulher quem mais perde.
Claro que não concordo com a forma que o
casal fez da babá uma muleta, deveriam sim, ter sido mais responsáveis neste
aspecto, mas quem nunca foi egoísta uma vez e achou bom ter uma folguinha de
algo. Não foi certo, eles receberam um retorno disso bem trágico, mas que serve
para mostrar que de nossa vida, somos nós quem temos que cuidar e assumir as
rédeas.
A obra se Slimani confronta a vida moderna em seu cerne, mostra que nem
sempre sabemos com quem lidamos e que não conhecemos ninguém totalmente. Há
ainda a abertura para debater sobre mercado de trabalho e situação de imigrantes
em países estrangeiros. Como citei, os crimes ficam em segundo plano depois que
mergulhamos na trama e vemos o quanto é ampla e crítica. Eu gostei muito, achei
bem inteligente. Recomendo.
Eu li esse livro mês passado e gostei muito, ficaram muitas coisas nas entrelinhas mesmo, porém a crítica e reflexão que faz sobre esses assuntos são bem interessantes e fizeram o livro valer à pena. Amei sua resenha, descreveu muito bem!
ResponderExcluirhttp://www.submersaempalavras.com/
Oi Cida, tudo bem? Quando eu vi a capa desse livro e o título fiquei super interessada, mas confesso que a sinopse me apavorou, porque sempre que há crimes envolvendo crianças eu passo longe das leituras. A tua resenha foi muito esclarecedora sobre alguns pontos, mas saber que existe o homicídio de crianças me incomoda MUUUUITO e não sei se terei coragem para ler essa história algum dia.
ResponderExcluirBeijos, Adri
Espiral de Livros
Oiee.
ResponderExcluirEu sempre gostei de dramas que também são puxados pro suspense. De alguma forma, a crítica social costuma me pegar mais. Por esse motivo, eu fiquei com muita vontade de ler o livro. Quero entender o que aconteceu.
Beijos.
Blog: Fantástica Ficção
Oi Cida!
ResponderExcluirEita, são muitas temáticas. Nunca que ia passar pela minha cabeça que o livro com essa capa fala sobre imigração. Essa realmente foi nova.
Apesar da ter sido uma surpresa positiva, a mim, a trama não chama muito atenção. Não curto muito livros com um lado investigativo ou thriller, então, nem me motiva a ler. Mas que bom que valeu a compra. Pelo menos já dá pra dizer: a bienal não foi ruim KKKK.
Abraços
David
https://territoriogeeknerd.blogspot.com/
Olá, Cida.
ResponderExcluirSe eu fosse olhar para esse livro sem saber do que se tratava nem me interessaria. Mas lendo sua resenha me interessei. E nem tanto pelo mistério em si, mas por todas as críticas que a história traz.
Prefácio
Olá, tudo bem?
ResponderExcluirFiquei muito curiosa pela história, sua resenha está muito boa!
Beijos, já estou seguindo o blog e sua página!
Little Moon