[Resenha] O Trem Dos Órfãos

O Trem Dos Órfãos
Título Original: Orphan Train
Autor(a): Christina Baker Kline 
Editora: Planeta                   Páginas: 304
Lançamento: 2014               ISBN: 9788542203547
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Quando Vivian Daly, uma senhora de 91 anos, decide se livrar de seus pertences antigos ela acaba recebendo a ajuda de Molly, uma adolescente órfã e rebelde, que está disposta a prestar serviços para não acabar no reformatório. Revivendo cada momento marcante de sua história, Vivian conta para Molly sobre sua família irlandesa pobre que foi de barco para Nova York em busca de uma nova vida e acabou morta em um incêndio. Sendo a única sobrevivente, ela foi levada por um trem com outras centenas de crianças que teriam seu destino decidido pela sorte. Seriam elas adotadas por famílias gentis e amáveis, ou teriam de encarar uma infância e adolescência de servidão e trabalho pesado?

O Trem dos Órfãos, de Christina Baker Kline, publicado no Brasil pela Editora Planeta, nos traz um encontro de gerações, entre Vivian, uma viúva rica de 91 anos e Molly, uma adolescente rebelde, que precisava cumprir cinquenta horas de serviço comunitário por ter furtado um livro na biblioteca, e exatamente por este motivo elas se conhecem, quando a garota vai arrumar o sótão da velha senhora para cumprir a punição. Ambas, em um primeiro momento, podem parecer opostos, pessoas que não têm nada em comum, mas logo na primeira conversa, Vivian revela a Molly que a entende, que sabe como a menina se sente em relação a vida, afinal mesmo tendo uma boa situação hoje, Vivian já esteve sozinha, a mercê da boa vontade dos outros, ela também foi órfã.

Tenho noventa e um anos de idade, e quase todo mundo que já fez parte de minha vida agora é um fantasma.

É arrumando o sótão de Vivian e abrindo caixas e mais caixas de coisas antigas, que datam de 1929, que tanto Molly, quanto o leitor, ficam sabendo sobre a jornada de Vivian. Ela veio com os pais da Irlanda, rumo a Nova Iorque e lá encontrou uma vida mais dura que a anterior; após um incêndio, perdeu toda a família e foi entregue para adoção, aos cuidados da Sociedade de Auxílio às Crianças, que colocava vários jovens em um trem e viajava pelos EUA em busca de um lar para os órfãos, daí o nome, “Trem dos órfãos”, que também intitula a obra. O mais interessante neste aspecto, é saber que entre 1854 e 1929, tal trem realmente prestou este serviço, ou seja, temos em mãos uma obra de ficção, mas que dá voz para algo verdadeiro, mesmo que Vivian não seja uma personagem real, é o retrato de várias crianças que viajaram naquele trem.

Era mesmo um jogo de sorte e azar, pois tanto as crianças poderiam ser adotadas por uma boa família, quanto poderiam ir para um local onde seriam exploradas como mão de obra escrava. Nossa Vivian passou por tudo, viveu em uma casa onde seu trabalho como costureira foi explorado, depois seguiu para uma casa cheia de crianças e pais ausentes, onde prevalecia a miséria, teve que suportar a questão do abuso sexual e muitos outros percalços, não foi uma vida fácil e durante toda a leitura eu esperava que ela encontrasse um lar e uma vida feliz.

Os capítulos são alternados entre passado e presente e posso dizer que é uma história muito boa de se acompanhar, gostei muito de Vivian e de Molly, não pude decidir se preferia a companhia de uma ou de outra, ambas são pessoas fortes, sofridas e muito inteligentes. A garota sem papas na língua, que escondia seu abandono atrás de rebeldia, deixa suas defesas caírem com aquela senhora, que foi tolerante, deu lhe espaço para expor seu  verdadeiro eu, há uma interação especial entre elas e ao final percebemos o quanto uma ajudou a outra.

Minha vida inteira foi levada pelo acaso. Momentos aleatórios de perda e conexão. Esta é a primeira vez, porém, que ela encontra o destino.

O trem e seu conceito são apavorantes, imaginem ser levado como mercadoria através de um país, com um futuro incerto pela frente, sem nenhum direito de decisão sobre sua vida. Eu pensei que nada de bom fosse resultar daquilo, mas me surpreendi ao constatar que a intenção era boa, mas devido as escassas condições, e uma série de outros fatores, como a distância por exemplo, não permitiam que o resultado fosse sempre positivo.

A narrativa de Kline é fluida, alterna entre terceira pessoa (2011) e primeira pessoa (1929) pela voz de Vivian. É um texto que te cativa e sabe mostrar dramas de maneira mais suave, eu acreditei que seria uma leitura pesada e com carga emocional fortíssima, mas embora a carga emocional seja grande, o clima é ameno, mostra o que tem que mostrar e sua gravidade, sem apelação para lágrimas, a narrativa não é desesperadora e derrotista, ao contrário, é otimista e cheia de esperança.

Há romance em ambas as épocas e achei que a autora poderia ter explorado mais o de Molly e traçado um caminho diferente para o de Vivian, mas este não é o foco do livro, a questão é mesmo a união destas duas mulheres e suas experiências compartilhadas, e claro, a maneira como cada uma sobreviveu. Como citei gostei muito de ambas, embora Vivian tenha me decepcionado com certa decisão que tomou, depois de tudo que ela havia vivido eu não esperava uma atitude como aquela.

E suma, O Trem dos Órfãos, é um livro sensível e tocante, com partes que mostram o melhor e o pior do ser humano, você sente mesmo nojo e revolta, mas também é recompensado com alegria ao testemunhar gestos sinceros de amizade e solidariedade. É uma trama consistente e bem elaborada, que com seu pano de fundo histórico,  traz a história de vida de muitas pessoas em cada página, e claro, te faz passar boas horas com duas garotas/mulheres incríveis. Eu adoraria ser amiga destas duas e poder arrumar aquele sótão com elas.

2leep.com

20 comentários:

  1. Oi Cida,
    não conhecia o livro e desta vez não curti muito a história.

    bjos

    http://blog.vanessasueroz.com.br

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  2. Cida, querida, que resenha maravilhosamente abrangente! Esclareceu muitas coisas que eu queria saber para, enfim, ler o livro... ou não.
    Pelo título sugestivo e bela - e triste - capa, fiquei completamente inclinada a ler. Mas tinha medo do sofrimento que estaria ali, certamente. A orfandade, por si só, já é dolorosa. Ser criança sem alguém para cuidar e olhar é algo assustador. Mas vc me conta de uma leitura gostosa, que tem drama, sim, mas mantém o foco na amizade, nos ensinamentos que Vivian pode passar para a jovem Molly... e confesso: já estou simpatizando com a rebeldia de Molly só porque seu erro foi roubar um livro... desejar um livro é algo forte. Essa menina tem salvação! rsrs
    Que bom que o livro não se prende à tristeza dos sofrimentos, mostra a força de mulheres. Adorei e vou querer pra já.
    Beijooo!

    Minhas novas resenhas, adorarei saber sua opinião:
    A Verdade sobre nós: Ler para Divertir
    A Cor do Leite: As Meninas que Leem Livros

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    1. Oi Manu! Não estou justificando, mas se todos os males do mundo se ressumissem ao roubo de um livro, as coisas não seriam tão feias. Sabe, eu pensava que seria uma trama bem dramática, mas não, é um drama, mas como citei, há otimismo, há esperança, e isso enche nosso coração de bons sentimentos.

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    2. Muito bom saber! Já quero para ontem esta leitura!
      Obrigada pela dica valiosa, do contrário temeria a leitura... depois te conto o que achei.
      Beijo!

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  3. Oi Cida,
    Ainda não tinha lido nenhuma resenha sobre esse livro, mas a amizade entre “Vivian e Molly” e a mistura passado e presente, já me convenceram a dar uma chance ao livro. Espero no futuro poder de lê-lo e gostar.

    *bye*
    http://loucaporromances.blogspot.com.br/

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  4. Oi Cida, tudo bem?

    Adorei sua resenha, posso dizer que foi a melhor que li do livro até agora. A história, pelo o que já li sobre o livro é sensível e tocante. Você ressaltou que o livro pode ser chocante as vezes, mas na minha opinião, faz parte. Esse livro é uma das próximas compras. Beijos!

    http://euvivolendo.blogspot.com.br/

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  5. Oie Cida =)

    Estou bem curiosa para ler esse livro, pois já li algumas resenhas positivas dele que me deixaram bastante curiosa. Gosto de livros com uma narrativa sensível, que me emocionem e me deixam encantada com a história e ele parece ser assim.

    Beijos;***

    Ane Reis.
    mydearlibrary | Livros, divagações e outras histórias...
    @mydearlibrary


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  6. poxa, tem tudo para ser um daqueles livros que você lê e nunca mais esquece!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  7. Eu sou mais uma que pelo título achei que o livro seria de um modo e pela resenha percebo que me enganei, mas isso não muda a minha vontade de ler o livro só me mostra que tenho que vê-lo sob outra perspectiva.

    Beijos.

    http://livrosleituraseafins.blogspot.com.br/

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  8. Oi Cida!
    Não conhecia o livro, mas gostei! Essa história de trem de órfãos me lembrou um livro do Zafón...

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  9. oie Cida
    já tinha lido uma resenha sobre esse livro, e ficado encantada. Amo quando ficção se mescla com histórias reais. Isso torna o enredo ainda mais emocionante e palpável. E também gosto quando o autor intercala sobre duas épocas diferentes. Preciso ler esse livro.
    bjos
    www.mybooklit.com

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  10. Oi Cida,
    poxa vida, passei por esse livro tantas vezes na livraria e nunca parei para ler a sinopse.
    Que livro incrivel!
    Estou encantada com a historia e quero ouvir a história de Vivian!

    Beijinhos
    Sou eu... Pri!

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  11. Realmente eu ainda não conhecia esse livro, bem interessante e ficou ótima sua resenha.
    Bjs
    http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

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  12. Cida!!!

    Eu ganhei este livro e estou criando coragem pra ler. Tudo que envolve guerra e o que aconteceu neste período me fazem sofrer horrores.

    Na sua resenha eu nem sofri muito, ela está bem leve e mais romântica, mas mesmo assim; quando você fala do trem onde as pessoas são tratados como mercadorias já comecei a ficar enojada.

    É claro que vou ler, e é óbvio que vou me emocionar!!!!

    Amei a resenha.

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  13. Oi, Cida!
    Ai, adoro ler tuas resenhas de livros que não conhecia. Sempre me estimulam a adquiri-los.
    Eu não conhecia este livro e agora necessito dele na minha estante e na minha vida. Parece ser uma história dolorosa e muito bonita. Acredito que gostarei muito. A premissa me deixou super interessado.
    Espero não me decepcionar.
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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  14. Oi Cida!
    Sua resenha do livro ficou muito boa, bem leve. O livro parece ser muito bom e parece mexer com o nosso emocional, essa coisa dos órfãos é bem séria.
    Me interessei bastante pelo livro.
    beijos

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  15. Amei essa resenha! *-*
    Não conhecia o livro, mas já coloquei na lista. Adoro histórias de encontro de gerações, acho elas tão enriquecedoras...
    O livro parece ser bem sensível e eu sinto que vou chorar, mas mesmo assim vale a pena ler. Vou procurar. ^^
    Beijo

    http://canastraliteraria.blogspot.com.br/

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  16. Oi Cida, tudo bem???
    A capa é super sensível, acho que a história me tocou só por ela. Dá para ter uma ideia do que iremos encontrar. E adorei o recurso que a autora usou para contar sobre duas mulheres, intercalando passado e presente. O drama que elas vivem é chocante mesmo, acho que vou acabar chorando. Adorei a resenha e a história, mesmo que não tenha favoritado dessa vez.
    beiinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  17. Adoro os livros da Editora Planeta porque as histórias são sempre chocantes. Fala sempre sobre relações humanas, essas coisas.
    Eu tenho muita vontade de ler este livro, mas ainda não tive muita oportunidade. Tenho certeza que é tocante mesmo. Que bom que gostou tanto.

    livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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  18. Oi Cida =)

    Linda, adorei a resenha. Sabia que você ia gostar do livro.
    Como você disse, alguns caminhos poderiam ser diferentes, mas o foco realmente é o laço destas duas mulheres. Eu também terminei o livro querendo ser amiga destas duas, trocas histórias e ficar longas horas conversando e arrumando aquele sótão. Terminei o livro tocada, é realmente uma história comovente e cheia de significados. Ótima resenha =)

    Beijos,
    Livy
    No Mundo dos Livros

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